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Incêndios, derrocadas e votos
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- Publicado em 16-06-2019
INCÊNDIOS, DERROCADAS E VOTOS……
Um olhar absolutamente telegráfico, pelos resultados das eleições para o PE 2019, obtidos nos vários concelhos do país, suscitou-me a particular curiosidade de observar os efeitos e as consequências que as calamidades resultantes dos incêndios e a derrocada da estrada de Borba poderiam, ou não, ter produzido nos resultados das votações nos concelhos afetados pelos incêndios de: 2017, em Pedrogão Grande, de 2018 em Monchique e o concelho de Borba, afetado pela derrocada da EN255, igualmente em 2018.
Tratando-se de ocorrências recentes e com graves consequências, das quais os lesados não foram ainda totalmente ressarcidos e que cujos processos estão envolvidos num sem número de anormalidades associadas à reconstrução das casas, aos donativos recolhidos e ao estado atual da floresta no local que apresenta as mesmas deficiências de ordenamento, era importante tentar perceber se teriam custos políticos.
Por tudo isto, e porque muitos dos feridos graves ficaram para sempre fisicamente afetados, estes temas, continuam ainda muito presentes na comunicação social e era suposto estarem também ainda muito presentes na memória coletiva dos residentes nos concelhos…!
Pensava eu…!
Pertenço ao grupo dos que ainda entendem que aos governos não cabe sempre a responsabilidade pelo deflagrar dos incêndios, pela mão de um qualquer doido ou pela irresponsabilidade ou negligência de outros tantos, mas…, não pertenço ao grupo dos que rápida e irresponsavelmente ilibam o Estado, os governos e os executivos autárquicos, pela inépcia na forma como previnem, reparam ou minimizam, os danos daí decorrentes…!
Esquecer Pedrogão Grande como: o maior incêndio florestal de sempre em Portugal, o mais mortífero na história do país, o 11º mais mortífero a nível mundial depois de 1900, as mais de 500 casas destruídas pelo fogo, as mais de 40 empresas afetadas, os mais de 350 postos de trabalho colocados em risco e mais de 500 milhões de euros de prejuízo; é uma irresponsabilidade de qualquer governo mas também uma incompreensível perda de memória coletiva de toda uma região.
Como se pode esquecer as 66 vitimas mortais?
Como esquecer os cerca de 250 feridos, alguns com gravidade e outros com mazelas para o resto da vida?
Como esquecer o desaparecimento das doações feitas?
Como esquecer as primeiras habitações não recuperadas ou não concluídas quando muitas das as segundas habitações já concluídas, fechadas e sem utilização regular como demonstrou ma recente reportagem?
Como esquecer o lastimável desempenho dos atores políticos do Estado, envolvidos em toda estes processos?
Como esquecer que uma boa parte das habitações já reconstruídas foi feita com ajuda da Cáritas, enquanto muitas outras, a cargo do Estado e da Autarquia, se encontram ainda por concluir, passados que são dois anos desde a ocorrência dos incêndios?
Se no caso dos incêndios de Pedrogão Grande e Monchique não poderão ser imputadas responsabilidades na sua deflagração, já não poderá o mesmo ser dito em relação à forma como foi conduzido o seu combate. Nestes dois casos as consequências são, apesar de tudo diferentes, mas revelam o mesmo “deficit” de competências para responder de imediato e eficazmente a situações de emergência.
No caso da derrocada da EN 255 em Borba, há obviamente uma responsabilidade que resulta, desde logo, na falta de ação adequada para prevenir a ocorrência que já se antevia poder vir a acontecer e para a qual já haviam sido feitos alertas que os governos e poder local foram sistematicamente ignorando.
Se as incompetências na governação geram (deveriam) consequências políticas para quem governa, seria expectável que no momento de acertar contas com o eleitorado o(s) partido(s) que sustenta(m) o governo vissem refletidos nos resultados locais uma manifestação de protesto inequívoca por parte dos eleitores que se viram lesados, enganados, desiludidos ou afetados por estes flagelos….!
Pensava eu….!
Mas…., surpreendentemente, ou talvez não, verifica-se que nos três concelhos afetados os resultados eleitorais foram um prémio aos partidos do governo…!
Assim sendo, poder-se-á perguntar:
- Terão estes eleitores legitimidade para reclamar, o que quer que seja, relacionado com os processos em questão?
- Como se sentem todos os eleitores que contribuíram com donativos que desapareceram misteriosamente dos armazéns onde estavam recolhidos, bem como das contas onde estavam depositados…?
- Que contributo foi dado, por parte dos eleitores, para a credibilização ou penalização, das práticas políticas demonstradas pelo governo e autarcas que revelaram estes comportamentos?
- Como esperam os eleitores que mudem os comportamentos dos eleitos em situações idênticas, que possam ocorrer no futuro….?
A falta de sentido critico e ação cívica por parte dos cidadãos, para com os seus eleitos, e a exigência de princípios éticos na governação, faz-se mais por ação dos governados do que por vontade dos governantes.
Arménio Simão
Vice-presidente do PSD Odemira
